A mulher no mercado de trabalho a partir da observação sobre os passageiros no transportes coletivos

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Como qualquer trabalhador comum de cidade grande, sou um assíduo usuário de ônibus. Pego todos os dias dois para ir e três para voltar. Caso contrário, neste último percurso, precisaria escolher por qual caminho deverei ir a pé: ainda na Barra, desde e o Guanabara da Av. das Américas até o ponto do 693 em frente ao Barra Shopping, totalizando algo em torno de 20 minutos de caminhada; ou o do Méier, o qual vai  do último ponto da Dias da Cruz até a minha casa, contabilizando uns 15 minutos andando. Amadores dirão que devo escolher o segundo, mas o prazer de saltar do ônibus próximo de casa, por muitas vezes, faz esquecer o estresse que foi a viagem de 1h30min em pé. Ok, farei um post qualquer dia falando melhor sobre isso.

Numa das minhas últimas viagens para o trabalho, reparei em algo que talvez muita gente já tenha observado, mas que até então eu nunca havia sentado para comentar o fato numa roda de amigos, numa mesa de bar, ou num chat do Facebook. De fato eu nunca presenciei nenhuma abordagem sobre o tema. Explico.

Assim que o ônibus chegou em seu último ponto na Barra – o novo Centro da Cidade do Rio de Janeiro – , todos começaram a levantar. Os que estavam dormindo, se espreguiçavam, esticavam a roupa junto ao corpo e cara para tentar ao máximo não descerem com aquela expressão de bife à milanesa. Os homens olhando e ajeitando as mangas das camisas, estas por sua vez eram descoladas das costas  devido ao suor; as mulheres desembaraçavam os cabelos, que naturalmente estavam amassados na nuca e arrumavam os óculos escuros que disfarçavam a cara de sono desde antes mesmo subirem no ônibus onde dormiam de boca aberta, exibindo tal cena para mais de 30 pessoas. Um senhor, que sentou ao meu lado uns três ou quatro pontos antes deste, aproveitou toda a movimentação e levantou a bola de ouro para minhas futuras observações:

– Rapaz, como tem mulher! Como que pode ter tanta mulher trabalhando… Cuidado para não perder o emprego, hein, hehehe.

Esta análise tal qual um resultado de uma pesquisa encomendada me fez pensar em três coisas em poucos segundos, as quais me deixariam confuso até entender o ponto que ele queria chegar:

1) Mais um coroa tarado puxando assunto aleatório sobres mulheres.
2) Nossa, realmente. Tem muito mais mulher descendo do ônibus do que homens.
3) Cacete! Vou ter que balançar a cabeça em “forma de positivo” com um leve sorriso de canto a para não ter que entrar no mérito sobre machismo, mulheres no mercado de trabalho, conquistas femininas, século XX (…)

E então, enquanto eu balançava a cabeça em “forma de positivo” com um leve sorriso de canto, mais eu me atentava ao item “2” e contabilizava visualmente muito mais mulheres que homens aparentemente indo trabalhar. Claro que isso foi uma conclusão que levou em consideração as roupas, o horário, algumas carregavam pastas e muitas delas eu já conhecia de vista por sempre pegarem o mesmo ônibus que eu. Para mim, estava longe de ser uma mera coincidência.

Fiquei com isso na cabeça todo o dia. Ao final do expediente, já tomando o rumo de casa, precisei seguir poroutro caminho, pois o 693 não passava de jeito nenhum. Quase uma hora no ponto e nada. Vi que muita gente também estava esperando, pois um grupo já não estava pegando nenhum outro ônibus havia algum tempo. Pensei: “Vou pela Tijuca!”. E subi no primeiro 304 que apareceu. Por causa dos 20 minutos de caminhada e mais uma hora pela espera do ônibus, esqueci completamente da conversa com o coroa “Data Folha”. Precisei de mais quase uma hora para finalmente saltar na Pça. Saens Peña.

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Precisei comprar ainda algumas coisas no mercado antes de pegar o segundo ônibus sentido Méier. Nada muito interessante nesta parte, ok. Vamos pular.

Coloque na conta mais 25 minutos de caminhada do ponto ao mercado e do mercado até a 28 de Setembro, embaixo de um chuvisco permanente numa escura e fria noite de julho. Cansado, derrotado, estressado, tendo como objetivo de vida apenas pegar um ônibus que me acolhesse, mesmo que me deixasse em pé com uma mochila nas costas e uma sacola do Mundial nas mãos, mas que me finalmente me levasse para casa. Naquele momento, não cabia qualquer exigência em meus desejos.

Antes de atravessar a última  pista, ele veio(!). Corri, fui batendo na lateral do ônibus para o motorista perceber a minha chegada e consegui ser o último a entrar. Dei aquele “boa noite” ao piloto, como quem queria agradecer por tudo o que ele fez de  bom em sua vida. Passei pela roleta e, a partir de uma visão panorâmica, de quem era um dos poucos em pé, veio a frase do “tio pesquisa quantitativa”.

Comecei a prestar a atenção em todos os passageiros e a maioria esmagadora aparentava ser de pessoas que voltavam do Centro da Cidade depois de mais um dia de trabalho. Resolvi então contar. De um lado, eram 18 cadeiras, do outro eram 16. Das 18 atrás do motorista, contabilizei 14 mulheres. Das 16 atrás do trocador,  se naquele momento eu ainda conseguir contar, vi 12 mulheres. Em pé, tinham apenas cinco ou seis homens contando comigo.  Fazendo a conta na calculadora do Windows enquanto postava este texto, cheguei ao seguinte resultado: 76,4% eram mulheres.

Note que até então, não havia considerado o fundão, onde há mais 13 cadeiras e todas estavam preenchidas. Também não discriminei idade. Deixo bem claro que essa observação geral foi feita com um bom senso  de que nem todos realmente estariam voltando ou indo para o trabalho, mas seriam minoria pífia.

De qualquer forma, de novo, não pôde ser coincidência. Dentro de um transporte coletivo com todas as cadeiras ocupadas, desta vez voltando do Centro, mais uma vez a maioria era composta por mulheres. Algumas hipóteses me vieram em mente, umas muito ou completamente absurdas e outras um pouco menos, mas que poderiam, de alguma forma, explicar a questão. Resumi em três:

A) Há mais mulheres que homens no mercado de trabalho;
B) Há mais mulheres que homens no Rio de Janeiro, o que pode ser causa ou apenas influência da hipótese A;
C) baseado em  informações do Governo Federal (aqui) e (aqui), o uso do transporte coletivo por uma maioria feminina  seria um reflexo sobre a posição de cargos ainda inferiores hierarquicamente dentro das empresas e organizações.
D) Pode ser apenas uma característica das duas linhas de ônibus que utilizei, podendo não ser algo representativo.

Obviamente, ainda estou longe de de uma conclusão e espero não ter represália sobre principalmente o item C. Seguirei com as observações. Tentarei ainda obter algum depoimento de algumas amigas sobre o tema levantado.

De qualquer forma, resolvi deixar ainda esta enquete abaixo para saber do pessoal que por aqui passar, qual poderia ser uma boa hipótese. Lembrando que uma hipótese não é uma resposta definitiva, mas uma possível resposta que pode ser confirmada, ou não, e que norteia as experiências e testes num método científico.

*Crédito da imagem: Giovanadamaceno.com

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Publicado em Ônibus, BrunUrbano

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