BrunUrbano apresenta: “Um outro olhar”

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Um fato que causou algum burburinho, muito pelo foco que a mídia tradicional deu, foi com a família da coreógrafa Deborah Colker num vôo da companhia Gol. Os grandes portais de notícias publicaram um constrangimento que ela, sua filha e seu neto de três anos passaram durante um procedimento de algo que eu chamo de “verificação de doenças e paternidades”, por não saber exatamente qual o termo e por nenhum site que cobriu o assunto ter informado tecnicamente. Muitas pessoas publicaram suas indignações sobre o fato nas mídias sociais, o que acabou fomentando mais ainda o assunto, se estendendo até hoje até então.

Não tenho acompanhado os telejornais por conta dos meus horários de trabalho e trânsito, mas como a internet acaba sendo um reflexo do que se passa na TV e, em algumas vezes, vice-versa, restringi a acompanhar apenas pelos sites, comentários e links divulgados na rede.

EgoTerra

Estadão

Alguns pontos me deixaram com a pulga atrás da orelha, encafifado, diriam os antigos já falo sobre isso.

Uma maioria de amigas minhas, muitas já são mães, algumas próximas de serem avós inclusive, se sensibilizaram totalmente com a versão dada pela Deborah e sua filha sobre o ocorrido. Foi notória uma comoção feminina por razões óbvias de identificação maternal a falta de tato da tripulação pareceu ser generalizada. Cheguei a questionar sobre o que o pessoal estava argumentando, se era sobre o procedimento, ou sobre a forma com que tudo foi tratado. Não ficou muito clara a posição geral, mas a partir de uma análise superficial, percebi que o povo realmente achava TUDO um absurdo, em sua maioria, mulheres.

Então resolvi procurar saber o que afinal poderia ter dado errado e comecei a levantar os tais pontos que me deixaram curiosos.

1)  A falta de atestado com os responsáveis.

A mãe da criança não levava um atestado alegando que nunca foi impedida de viajar tanto pelo Brasil, quanto para o exterior. Isso quer dizer que a falha nos procedimentos virou regra e justifica o não cuidado em evitar esses tipos de situações? Óbvio que se tratando de uma doença não contagiosa, não seria algo trivial, mas nesse caso imagino que o bom senso sobre o “e se eu fosse o comandante ou qualquer outro leigo sobre a doença, agiria de que forma?” Será que o médico não orientou? Enfim, já comecei a entrar em méritos que aparentemente não convenham, mas que podem fazer parte de todo o contexto da história.

2) O pedido de atestado feito dentro do avião

Ficou bem claro que houve um grande descaso no procedimento de embarque. Não é no avião que eles pedem seus documentos, certo? É no check-in e no portão de embarque, certo? Por que então pedir um atestado que, se fosse um caso de contágio grave, poderia impedir a família de viajar? Imagina você com a passagem já comprada, check-in feito, assentos escolhidos, aguardando apenas a aeromoça fechar as portas e o comandante zarpar, ter que desistir de tudo porque alguns funcionários possivelmente não exigiram ou perguntaram se alguém da família tinha alguma doença que necessitasse de um atestado por medidas de segurança e, consequentemente, evitar constrangimentos e situações desconfortáveis aos passageiros, aos tripulantes e aos próprios responsáveis.

E sim, foi bizarro chamar um médico já dentro do avião e todo o atraso gerado pela confusão.


3) Afinal, qual o procedimento a ser tomado?

Estou longe de ser um espacialista em procedimentos de embarque e desembarque de passageiros de avião. Suspeitei sobre tudo ocorrer já dentro do avião. Entendi que alguém queria consertar um furo dos funcionários responsáveis pelas abordagens pré-embarque, para que uma bomba não estourasse na última ponta da corrente, no caso, o comandante. E quando falamos em bomba, mesmo que não literal em avião, nos deparamos com várias histórias de falta de segurança, algumas inclusive noticiadas pelo Fantástico há uns anos quando o assunto “terrorismo” estava em alta, muito por conta dos atentados de 11 de setembro.

Senti a necessidade de uma outra versão, ou um outro olhar de quem lida com isso todos os dias e que não estivesse envolvido diretamente com o caso, mantendo um distanciamento e um máximo de imparcialidade possível. Digo “possível”, pois nesse caso é difícil alguém não puxar sardinha para o seu lado,. Sejam as minhas amigas mães ou qualquer comissário, aeromoça, ou comandante que viesse se pronunciar.

O Facebook nos oferece uma absurda facilidade em ter contato com pessoas que muito improvavelmente você teria caso a internet não existisse. Entre alguns amigos virtuais e reais na minha lista de amigos, descobri que eu tinha um contato indireto com uma funcionária de uma companhia aérea brasileira. Resolvi então perguntar sobre o treinamento e o procedimento correto a ser tomado nessa situação. Algo parecia não estar muito bem resolvido. Afinal, o que estava errado além, claro, da rispidez denunciada pela coreógrafa? A falta de um atestado junto aos documentos, por se tratar de uma doença “diferente” e exposta que acaba, despertando uma natural curiosidade aos leigos (qualquer um de nós que não teve contato ou que não é médico), ou o pedido do tal atestado em prol da proteção aos passageiros por poder se tratar de uma doença contagiosa (ok, não era) ? Ao final, quem assumiria o risco?

Segue a conversa:


Funcionária:
Isso tudo tinha que ter sido verificado lá fora, no check in, mas como a gente diz: “a bomba sempre explode dentro do avião.” Eu digo SEMPRE não vai ser a primeira nem a última. Outra questão: ninguém é obrigado a saber sobre todas as enfermidades que existem ai, que são milhares.

Brunurbano:
Então  faz parte do procedimento fazer o pedido do atestado antes do embarque?

Funcionária:
Temos o treinamento sobre a abordagem, sobre o questionamento de maneira bem discreta para não causar nenhum mal-estar ou constrangimento, porque você sabe, tudo hoje da processo.

Quanto a documentação, é pedida sim no check-in antes de tudo.

Brunurbano:
Há essa informação oficial onde os funcionários devem fazer a abordagem sobre doenças e qualquer caso especial antes do embarque?

Funcionária:
Às gravidas, aos operados. Sim. isso tudo deve ser questionado no check- in, só que estamos com um problerma. Existem esses tótems de atendimento, o check- in pela internet que as pessoas não estão passando pelo check-in humano.

Brunurbano:
Bem lembrado

Funcionária:
Só pelas maquinas e lá não cobram isso. Eu já tive um problema sério com passageiro armado. Eu descobri um cara armado e as portas do avião já estavam fechadas.

Brunurbano:
Depois do check-in então não há nenhuma abordagem?

Funcionária:
Há sim. Tem como abordar no portão de embarque.

Brunurbano:
Mas faz parte do procedimento ou apenas há essa possibilidade?

Funcionária:
Faz parte do procedimento. São vários filtros e o portão de embarque é um só que geralmente é muito corrido. Ou apenas um funcionário trabalhando e muitas vezes fazem vista grossa.

Brunurbano:
Quais são os filtros?

Funcionária:
Os filtros são o check in, o raio x, o portão de embarque. Só que Bruno, as coisas só explodem lá dentro. Não há grupo tão comprometido quanto o nosso, por isso que empurram e deixam para a gente resolver tudo.

Brunurbano:
Pareceu um jogo de empurra e quem ia pagar o pato era o comandante. E a tripulação que se virasse.

Funcionária:
Extamatente. É isso. mesmo. Não estão analisando o outro lado. Estão comprando a versão da Deborah. Pare e pense: você e a maioria não conhecem a doença. Você não sabe se é contagiosa ou não. Lugar fechado, você não ficaria preocupado?

Brunurbano:
Era essa a minha dúvida, onde estava o erro. Imaginei que existisse algum procedimento que foi furado mas não tinha uma informação oficial. Ficaria, claro. O que a tripulação fez foi o que nenhum dos outros departamentos fez.

Funcionária:
Isso. Eles foram perfeitos, prezaram por eles e por todos, só que ninguém ainda parou pra pensar nisso. E outra, Bruno: a Deborah estaá falando da questão da abordagem. Eu não acredito que a abordagem tenha sido de maneira grosseira. Eu acho que foram elas que já foram atacando e já se sentindo discriminada.

Estadão

Ainda exemplificando o caso de passageiros tentarem burlar os procedimentos, seja para evitar alguma burocracia, por esperteza, ou pressa, ela ainda comentou sobre caso de uma mulher grávida de 7 meses que apresentou um atestado antigo, dando a entender que estaria longe de qualquer risco de parto, ou do final do período da gestação. Imagine então uma equipe não avisada sobre um provável risco de parto durante o voo, sem poder se preparar previamente para isso.

Encontrei ainda um depoimento no Facebook de uma pessoa que diz ter ficado no mesmo avião onde ocorreu todo o caso. Não consegui um print da tela, nem acesso ao post original, mas já está rolando uma foto pela rede. Acho interessante a leitura:

brunurbano_depoimento_casocolker

As matérias que se desenrolaram e evoluíram para reportagens, sensibilizaram a todos como se houvesse um lado bom e outro mau. Esses dois lados foram bem definidos pelos portais de notícia. Houve ainda a divulgação de uma carta de desculpas da companhia, sem ouvir passageiros, ou qualquer outra testemunha que pudesse dar um tom de imparcialidade. A lógica para mim ficou clara: alguém fez algo errado e esse alguém assumiu o erro , pedindo perdão. Mas cadê os depoimentos dos envolvidos e testemunhas?

Outra questão é a tomada de partido precipitada do público sem saber sobre todo o fato, principalmente sem conhecer os envolvidos pessoalmente, não podendo então utilizar qualquer histórico de comportamento ou personalidade. Desta forma, como dizer que alguém estava certo ou errado logo assim que a primeira notícia foi veiculada, sem qualquer opinião ou versão que não fosse a do acusador, ou detalhes claros sobre uma possível falta de tato? Será que ocorreu alguma intolerância a uma repreensão, ou a uma falta de tratamento diferenciado por ser quem era? Alguém pode dizer que não ou que sim?

O que me impressiona, ou pelo menos me alerta,  é que um fato com uma celebridade toma uma proporção enorme. Óbvio que é um caso delicado que envolve um filho e uma mãe constrangida. Não há nada que possa justificar isso. Mas nós nos sensibilizamos com eles por termos como ídolos, exemplos, referências, ou identificação. Então comentamos, potencializamos e por muitas das vezes não ponderamos as situações, ainda que os dois lados possam ter suas parcelas de culpa e que talvez a história não tenha sido bem assim como divulgada.

– – – Atualizado  – – –

Para quebrar um pouco o clima tenso do assunto, achei hoje este vídeo por total coincidência no meu feed de atualizações dos blogs que sigo.

Falando sobre procedimentos de segurança, será que vale um pouco de humor para descontrair e transmitir as informações? Será que perdemos um pouco a seriedade e importância sobre a segurança ao quebrarmos o gelo e a tensão de alguns que tem o famoso medo de avião?

**Créditos do vídeo:  Vagabundo Profissional

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