Trago na promoção para alegria da sua viagem: respeito, bom senso e educação

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De acordo com a minha memória e alguns artigos que encontrei no Google para tomar como base para a introdução deste post, junho de 2013 foi um mês que ficou marcado pela onda de manifestações e protestos nas grandes cidades do Brasil. O tal gigante resolveu acordar, milhões de pessoas foram às ruas exatamente como o convite #vemprarua sugeria – ao menos , de acordo com uma música do Rappa usada num jingle do comercial da FIAT, o grande motivo de ir para a rua se dava pelo fato de lá ser a maior arquibancada do Brasil (u-Ô!)

Eu, assim como muitos outros, achava que realmente as coisas iriam mudar. Que o povo estava unido. Que finalmente uma reforma política e social iria ocorrer. E principalmente, o mais importante, que as pessoas estavam conscientizadas por defenderem (ou não) as manifestações, cada uma com seus pontos de vista, mas no fundo no fundo, todos almejavam que houvesse uma real melhora na nossa sociedade, a começar com o fim da corrupção. Idealismo (utopia?) que todo cidadão, por pior caráter que tenha, gostaria que fosse alcançado.

Em todos os argumentos, em todas as defesas e os discursos politizados, faltou apenas um importantíssimo detalhe. A mudança de consciência pessoal. Afinal, superficialmente falando para não precisar entrar no mérito da relativação da definição, do que é feita a uma sociedade se não de dois ou mais cidadãos com interesses que se cruzam direta ou indiretamente? Se o sócio da sua empresa não cumpre com o acordo, ou tenta de alguma forma te passar para trás, a sociedade feita entre vocês entra em crise, seja por falência, seja pela descoberta de alguma atividade fraudulenta. Para a sociedade dar certo, não basta apenas cada um “fazer o seu” de forma lícita, é preciso uma cooperação nas atividades em comum e ou dependentes.

Ilustro isso com o que ocorreu comigo em mais uma experiência em aventuras com transporte público e todos os processos que as envolvam.

Na noite de ontem, ao sair do trabalho, fiz o de praxe. Quando não vou andando até a Alvorada, ou Barrashopping, (40/20 minutos de caminhada respectivamente), pego um ônibus que faz o trajeto pela metade do tempo. Troquei umas três palavras com um passageiro que compartilhava comigo a frustração de perder tempo no trânsito à caminho do trabalho. Outro que entrou por trás, me pediu ajuda para segurar o que parecia ser um gabinete de PC enquanto ele pagava a passagem. Tudo estava tranquilo, inclusive o trânsito que, incrivelmente depois de muitos dias não apresentava nenhum problema por conta de acidentes, murrinhas no volante, entre outros entraves.

Ao chegar no Barrashopping, avistei meu segundo ônibus já parado no ponto. Uma senhora percebeu minha ansiedade e perguntou se aquele era o 693, que ela também iria pegar. Confirmei, descemos juntos comentando sobre a sorte de termos chegado antes dele sair. Enquanto me encaminhava para a fila, ia descobrindo aos poucos que o ônibus iria lotar e a tal senhora desistiu de encarar o perrengue. Comentei com ela que ela tinha prioridade, que poderia entrar na frente. Ela preferiu pegar outro (691) que também tinha acabado de chegar, mas que não fazia exatamente o mesmo caminho deste.

Me encaminhei ao final da fila e percebi que não daria para entrar no coletivo. Percebi também que o ponto tinha algo de diferente, além do poste de luz apagado. Eu deixei o ônibus ir embora, ficando em primeiro e vendo a galera amassada dentro dele. Um rapaz veio correndo, batendo no ônibus para o motorista esperá-lo. Não sabia ele que mal sobrava espaço entre o pé do motorista e o acelerador e desistiu, entrando na fila que se formava atrás de mim. Chegaram ainda algumas pessoas perguntando sobre o trajeto do ônibus, se aquele era o ponto do 693, quanto tempo levava até o Méier, etc. Como de costume, respondi a todos como um especialista em engenharia de transportes públicos cordial e simpático. Uma outra senhora chegou e achou que eu estava no final da fila. Expliquei que eu era o primeiro, mas que poderia ficar por ali. Ela agradeceu a gentileza. Nesse meio tempo já éram algumas seis ou sete pessoas. Ainda assim, algo me incomodava. algo estava errado e ninguém reparou.

Ao olhar para trás, notei que algumas pessoas começaram a sair da fila que eu me encontrava. Duas mulheres, o tal rapaz que chegou correndo e uma outra moça. A senhora que eu tinha dado preferência, optou por não esperar o outro 693 e, assim como a outra, pegou o 691, alegando que ao menos ia sentada. Sobraram duas mulheres atrás de mim e eu. Mais de 70% da fila já havia se dispersado.

Dez minutos após a saída do ônibus lotado, veio o nosso! “Maravilha, demorou menos do que eu esperava.” – comentei. As mulheres atrás de mim soltaram um sorriso de alívio e balançaram a cabeça em forma de confirmação. O motorista veio até na nossa direção abrindo a porta. Chegou tal qual o Cavalo de Fogo chegava para levar a princesa Sara para o mundo dos sonhos. Tudo estava muito bom mesmo. E isso me preocupava.

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De repente ele começou a dar ré. Ao olhar para onde ele iria parar após a manobra, havia uma fila com algo em torno de 30 pessoas. Um verdadeiro exército muito maior que o meu e que esperava pelo mesmo ônibus. Ao verem eu me aproximar da porta do ônibus começaram a gritar como bárbaros nórdicos:

– A fila não é aí não! A fila é aqui!
– Tá furando fila, rapá!
– Hey! Tem fila, garoto!

Ao entender o problema, tentei retrucar, dizendo que eu era o último da outra fila e que então, passei a ser o primeiro desta. Eu de fato não havia visto nenhuma outra fila quando cheguei ao ponto. Durante a explicação, vi algumas pessoas que aparentemente tinham desisto da que eu havia formado e tentei explicar:

– Eu vi ela e ela saindo daqui. Aqui era a fila para o próximo.

Uma delas olhou para mim como se eu estivesse falando em latim de trás para frente. E eu repeti olhando para ela:

– Eu vi você e ela aqui na fila. Vocês estavam aqui e sairam. Eu não furei fila nenhuma!

Ao falar isso, indicando a quem eu me referia, acertei uma braçada no nariz de uma mulher que ainda estava perdida na minha fila. Entre uma gritaria e outra, consegui ao menos pedir desculpas. A tal com a cara franzida, aos poucos desfazia o semblante de “não to entendendo nada” e resolveu se pronunciar de forma clara e objetiva:

– É só pensar, né?!

E assim, tranferiu para mim a câimbra facial.

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Muitos ali não estavam entendendo nada e simplesmente resolveram entrar no coral de vozes estridentes a menos de dois metros de distância de mim. Uma outra ainda me encarando, soltou:

– Meu filho! Eu pego ônibus todos os dias aqui e o ponto é LÁ ATRÁS!

Daí caiu a ficha e tudo ficou claro. Eu estava fora do ponto o tempo todo. Certo ou errado na posição da fila, o ponto não era aquele. O motorista que havia parado erradamente e eu, que cheguei depois da primeira fila se formar, apenas acompanhei o fluxo.

Antes que eu preparasse uma resposta ainda educada para tentar explicar que eu não estava furando fila, uma mulher ponderou sabiamente:

– Ele achou que o ponto era ali porque o outro ônibus parou mais a frente.

E assim aos poucos os bárbaros foram largando as suas lanças.

Resolvi então entrar no ônibus no meio desse vuco-vuco todo antes de perder a razão. Eu poderia simplesmente pedir desculpas e entrar no final da fila, mas nada me garantia que aquele pessoal havia chegando antes de mim, visto que duas pessoas que estavam atrás de mim na “minha fila”, agora brigavam comigo por eu “querer furar”.

Ao colocar o primeiro pé no degrau, já puxando a segunda perna enquanto me segurava no corrimão da porta, ouvi uma voz já solitária vindo de um lugar não tão distante de mim:

– ESSE É MALANDRO! VOCÊ É ESPERTO, NÈ!?

ogrito

Ainda pendurado na porta, olhei e achei o autor e personagem d’O Grito. Era exatamente o tal que havia corrido e tentado entrar no ônibus lotado. Olhei diretamente para ele e resolvi descer. Fui em direção ao final da fila e senti que todos se calaram ao perceberem a minha atitude (uau!).

Cheguei perto, bati no ombro dele e falei:

– ‘Mermão!’ Não tem nenhum esperto aqui não, nem malandro. Vou para o final da fila. Tá tranquilo. Você nem sabe o que está falando. Eu era o último da fila do ônibus que você tentou entrar e não conseguiu. Eu vi você chegando correndo inclusive. Eu parei ali porque o ônibus estava parado ali.

– Mas você não está na fila.

– Não estou nessa fila porque eu nem vi ser formada. Você saiu da que eu estava e foi para essa.

Saí e continuei indo ao final da fila. Chegando lá, uma mulher que estava no telefone e era a última falou para eu passar a frente dela. Eu obviamente disse que não e esperei o meu momento de entrar no ônibus. Um rapaz que estava a frente dela comentou para mim:

– Cara, se ainda tivesse lugar para sentar, eu até entenderia, mas o povo que está aqui vai em pé. Então nem precisou disso tudo.

Concordei e reforcei a ele o que havia acontecido. Notei que o cara estava com uma cara de sono e com pouca paciência para barracos, o que fazia muito bem. Voltei para o meu “devido lugar” e logo a mulher a minha frente comentou:

– Eu passei exatamente por isso agora. Eu estava numa outra fila, achando que era a do 693 e vi não vi que tinha essa. Ouvi um pessoal gritando e percebi que era comigo. Meu namorado no telefone ainda perguntou se eu tinha arrumado encrenca com alguém, mas foi só a falta de educação do povo mesmo.

Ou seja, por que não simplesmente alguém, percebendo que estava se formando outra fila, não informou que estávamos enganados? Por que as duas garotas que sairam de onde estavam , ao descobrirem que a fila estava errada, não fizeram a gentileza de avisar que a fila era outra? Sabe por quê? Porque além de egoístas, elas espertamente não iriam ficar atrás de mais quatro pessoas, somando com as que estavam já na outra. O rapaz que correu para tentar pegar o ônibus viu que tinha uma outra fila e também não quis informar.

Fui me acalmando com a mulher que compartilhou comigo a mesma experiência, porém de forma mais tranquila. Foi me dizendo para eu não me estressar, que assim como ela sempre foi uma pessoa tranquila e que agora grávida tem um motivo a mais para não se irritar com as coisas, etc. Conversamos sobre a falta de educação e bom senso das pessoas, da sociedade e tudo mais. Falamos sobre o tabu dos assentos preferenciais para idosos, gestantes e deficientes, sobre a gentileza das pessoas e chegamos nas manifestações de junho, as quais ela repudiava as ações violentas com alguns argumentos superficiais, mas que fazendo sentido ou não, mostrava o quão diferente as pessoas enxergaram os atos.

Cheguei então à conclusão de que o povo que gosta de barraco se juntou ao pessoal das manifestações. Muitos deles sem saber o que estavam fazendo lá, apenas para gritar contra a corrupção, mas sem ter noção prática nenhuma de civilidade e educação. Isso não tira o direito dessas pessoas se juntarem à passeatas, etc, mas reflete que a mudança pessoal deve ser a primeira a ser feita, antes de exigir uma mudança mais complexa, seja ela política (de pessoas como qualquer outra, só que em posições de poder, o que deixa tudo mais perigoso), ou social (a começar por cada um).

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Publicado em Ônibus

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